Crédito: Divulgação/Corpo de Bombeiros/SE

Por Paula Barcellos/Jornalista da Revista Emergência

Recentemente mais um incêndio de grandes proporções foi registrado em hospital. Em final de maio, um incêndio atingiu a ala de estabilização para pacientes com Covid-19 do Hospital Nestor Piva, em Aracaju/SE, e cinco pacientes morreram. O ocorrido entra para a lista de mais uma tragédia de grande magnitude, com múltiplas vítimas, envolvendo EAS (Estabelecimentos Assistenciais de Saúde).

Incêndios em hospitais são uma constante no país e trazem riscos não só para pacientes como para os trabalhadores do estabelecimento. Segundo o ISB (Instituto Sprinkler Brasil), as notificações de incêndios estruturais em hospitais praticamente dobraram em 2020. Levantamento da entidade, por meio do monitoramento diário de notícias de incêndios nacionais, capturou 53 ocorrências no ano passado contra 27 registros em 2019, sendo que somente nos quatro primeiros meses deste ano as notificações de incêndios em hospitais noticiadas pela imprensa já somam 15 ocorrências.

CAUSAS

Várias são as causas que levam a incêndios nos hospitais. Segundo o presidente da ABSpk (Associação Brasileira de Sprinklers), Felipe Melo, motivos ligados à rede elétrica são uma das causas mais comuns nas ocorrências. “Além de problemas com trabalho à quente, como, por exemplo, solda em estrutura metálica ou qualquer outro método que gere faísca, é comum vermos, também, casos envolvendo ar-condicionado, coifa de cozinhas ou até mesmo fritadeiras”, complementa. No Rio Grande do Sul, o coronel da reserva da Brigada Militar e professor no CBMRS (Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul), Sergio Pastl, tem visto causas semelhantes. “Em nossos trabalhos voluntários nos Hospitais de Porto Alegre, Canoas, Bento Gonçalves, Rio Pardo, Gravataí e outros municípios, temos visto incêndios nas cozinhas (frituras e coifas), em cafeteiras, elétricos (equipamentos biomédicos, estufa neonatal) e ar condicionado, ultimamente”, cita.

Roberto Ramos, coordenador da ABNT NBR 16651 (Proteção Contra Incêndios em Estabelecimentos Assistenciais de Saúde – EAS – Requisitos) diz que estes estabelecimentos no Brasil não estão protegidos de maneira adequada por uma série de fatores. “Sabemos que o Brasil carece de investimentos adequados no setor e, muitas vezes, temos que compactuar com a ideia de que a Segurança Contra Incêndio inevitavelmente tem que ficar para o segundo plano.  Existe também a desqualificação técnica de toda a cadeia envolvida na construção de um hospital, por exemplo, que vai desde o projeto até a instalação, manutenção e inspeção dos sistemas de Segurança Contra Incêndio. É inadmissível as universidades técnicas ainda não possuírem hora-aula obrigatória de Segurança Contra Incêndio”.

O engenheiro Eletricista com pós-graduação em Segurança do Trabalho, especialista em Engenharia de Segurança Contra Incêndio e membro fundador da ABDEH (Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar), Marcos Kahn, complementa que, de forma geral, os gestores hospitalares não estão efetivamente preocupados, com a segurança contra incêndio das instituições e, de certa maneira, acabam por delegar isso ao CB para ter simplesmente uma aprovação legal. “O que o Bombeiro atesta quando concede o AVCB – Auto de Vistoria – é que os requisitos mínimos perante o que determina a legislação do Estado estão sendo atendidos, mas isso não é suficiente para resguardar a segurança dos pacientes e dos hospitais de forma geral. Todos os Códigos de Segurança Contra Incêndio no país falam de hospital, mas não existe um único tipo de hospital e um único tipo de paciente. Um hospital de trauma, por exemplo, vai ter muito mais pacientes que não conseguem se locomover, por exemplo”, explica.

Crédito: Divulgação/Corpo de Bombeiros/SE

COVID

Até agora não se sabe com certeza a causa do incêndio no Nestor Piva, mas a suspeita é de que o fogo tenha iniciado no ar-condicionado do setor que atende pacientes de Covid-19, o que chama a atenção para um novo agravante no cenário incêndio em EAS. “Existe um grande problema com a manutenção dos equipamentos no Brasil. Se tem uma determinada atenção para a manutenção dos equipamentos eletromédicos e não se tem a devida atenção para a manutenção dos equipamentos de infraestrutura, quer sejam eles os elétricos, de ar condicionado e outros. Particularmente com a Covid-19 isto está potencializado porque temos uma mistura muito perigosa, composta por hospitais que já estão deixando de lado o risco de incêndio porque não têm medidas efetivas para isto e hospitais que estão sobrecarregados. Ou seja, o que a instituição vai fazer primeiro? A manutenção de um quadro elétrico ou de uma linha que suporta equipamentos que estão sendo usados na Covid-19?”, questiona Marcos Kahn. Segundo ele, outros problemas agravados com a pandemia são a falta de preparo das equipes e o aumento da carga de incêndio nos hospitais. “Com as equipes absolutamente exaustas não tem como tirá-las da operação de emergência para fazer treinamentos. Portanto está todo mundo enferrujado ou despreparado para enfrentar uma situação de emergência. Além disto, o risco de incêndio está agravado porque o oxigênio está sendo usado em larga escala”, cita.

Ramos acha que seria impossível quantificar, mas os riscos aumentaram com a Covid-19, pois os EAS operam, muitas vezes, acima das suas capacidades. “Grande demanda para mais materiais, mais oxigênio, novos equipamentos sendo postos nos corredores, às vezes, obstruindo a evacuação e impossibilitando o combate adequado, ou seja, a incidência realmente aumentou durante a pandemia e principalmente o risco de uma tragédia maior. Os hospitais de campanha são um dos exemplos de grande risco, pois simplesmente não tivemos tempo de adequar estes locais, eles foram montados às pressas”, diz. Coronel Pastl concorda que a celeridade da pandemia afetou a SCI dos hospitais. “A celeridade imposta pela gravidade e numerosa clientela levou os gestores a adaptarem espaços e equipamentos sem atenderem os requisitos de projetos tradicionais. Assim, NBRs relativas à eletricidade, ar condicionado, serviços de gases, medidas de isolamento de risco e outras de Proteção Passiva, talvez não puderam ser obedecidas. O Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo editou Instrução Técnica sobre instalações provisórias, que muito tem ajudado. Ainda assim, podemos ter não conformidades que podem gerar eventos”.

ENGENHARIA

Marcos Kahn destaca algumas ações importantes para mudar o panorama dos incêndios nos hospitais. “Do ponto de vista de Engenharia, o hospital normalmente tem um corpo de arquitetos e engenheiros que deveriam ter uma especialização maior com relação à SCI, pois não é simplesmente contratar um projeto e delegar que ele seja feito conforme normas técnicas. O hospital tem uma série de requisitos específicos. É preciso conhecer a fundo a edificação hospitalar e relacionar esta edificação com os riscos. Tem que se ter uma atenção gigante com relação aos detalhes porque é neles que se consegue mitigar os riscos da SCI, partindo de, no meu entendimento, um aspecto fundamental que é compartimentação”, destaca.

Coronel Sergio Pastl aponta que um caminho para melhorar o conhecimento dos profissionais está na legislação federal. “A nova Lei Federal 13.425 – Lei Kiss – prevê que as escolas de Engenharia e Arquitetura passem a ter conteúdos obrigatórios sobre SCI nos cursos de graduação. Isto produzirá uma massa crítica de profissionais, melhorando muito o nível de proteção em EAS”, diz.

Investimentos em sistemas adequados de controle e combate, como detecção e alarme de incêndio e chuveiros automáticos, em rotas de fuga bem dimensionadas, que ajudam em uma evacuação mais rápida, e em medidas de Proteção Passiva, como Controle de Materiais de Acabamento e Revestimento, são outros aspectos importantes para a Segurança Contra Incêndio nos hospitais, segundo os especialistas entrevistados.

NORMA

A partir da preocupação com os incêndios ocorridos em hospitais e suas consequências para trabalhadores e pacientes, normas e publicações específicas surgiram no setor. “O primeiro passo foi dado com a publicação da primeira Norma Brasileira de Segurança Contra Incêndios em EAS, a NBR 16651, em abril de 2019.  Ela entrou em revisão alguns meses após a sua publicação e tivemos uma breve pausa nos trabalhos devido à pandemia, mas já retomamos e, com certeza, quando fecharmos o novo texto teremos uma melhora significativa no nível técnico de proteção e segurança dos nossos EAS”, reflete Ramos, coordenador da norma. Autor do Manual de Segurança Contra Incêndios em EAS, publicado em 2014 pela Anvisa, Marcos Kahn trabalha há quase 20 anos na área de Segurança em EAS, incluindo SCI, segundo ele, parte fundamental da proteção de trabalhadores e pacientes. “Para você ter um tratamento assistencial seguro, você precisa ter a segurança dos seus colaboradores e a SCI é parte integrante de tudo isto”, diz.

O INCÊNDIO

Crédito: Divulgação/Corpo de Bombeiros/SE

O incêndio no Hospital Nestor Piva, em Aracaju/SE, ocorreu no dia 28 de maio e atingiu a ala de estabilização para pacientes com Covid-19. Cinco pessoas que estavam internadas na unidade de saúde no dia do incêndio morreram e várias precisaram de atendimento médico, em função de queimaduras e inalação de fumaça. Mais de 70 pessoas estavam na unidade, entre pacientes e trabalhadores, que também passaram mal após a prestação de socorro.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe, foi montada uma força-tarefa de mobilização de toda rede pública de saúde para dar assistência às vítimas do incêndio. Foi instituída uma coordenação pela CRU/SAMU para comandar a triagem e remoção das vítimas, envolvendo viaturas (USB e USA), além de motolâncias. Órgãos estratégicos para o momento, como o Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Guarda Municipal e Polícia Militar também foram envolvidos.

Conforme o CBMSE (Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe), o incêndio foi combatido rapidamente, no entanto a logística de retirada e transferência dos pacientes foi um desafio. “O grande problema foi o pós-ocorrência, quando atuamos em auxílio à equipe médica e SAMU na transferência das vítimas e demais pacientes para outras unidades hospitalares. Haviam muitas pessoas a serem trasladadas e, no momento, poucas ambulâncias, que foram chegando com o passar do tempo, gerando assim, certa problemática na logística. O estacionamento, acesso e saída viraram um gargalo neste momento de crise”, cita a Assessoria de Comunicação do CBMSE. As investigações sobre as causas do incêndio continuam em andamento.

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