Crédito: Divulgação/Secom

Fonte: G1

Uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) passou quase quatro horas à procura de vagas em leitos de hospitais de Manaus, na manhã deste domingo (26), para um paciente de 64 anos que apresentou sintomas de Covid-19. Sem estrutura suficiente, um funcionário desabafou: “tá ficando cada vez mais agravante a situação”. Na última quinta-feira (23), a Secretaria de Estado de Saúde informou que 96% dos leitos de UTI já estavam ocupados.

Em entrevista ao G1, na quinta-feira (23), ocoordenador geral do Samu, Dr. Ruy Abraim, já havia informado que oito pacientes passaram a madrugada em ambulâncias, “perambulando” em hospitais à procura de vagas em leitos.

“Hoje, podemos classificar a nossa situação, e acho que de todas: à beira do desespero. Muito complicado. Estamos com uma sobrecarga muito grande, mas, o maior problema é pegarmos os pacientes, atender e aí não ter vagas em unidades para receber essas pessoas. Está tudo lotado”, disse.

De acordo com o último boletim epidemiológico, divulgado neste sábado (25) pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), o Amazonas registrou mais 441 casos novos de Covid-19. Com isso, o número de pessoas infectadas pela doença ultrapassa 3,6 mil. Também foram confirmados mais 32 mortes pela doença, elevando o total para 287.

Neste domingo (26), a equipe do Samu foi acionada para buscar o paciente em casa, no bairro Novo Israel, Zona Norte de Manaus. Familiares disseram para os profissionais que o idoso estava com sintomas de Covid-19 e possui diabetes.

A movimentação para tentar levar o idoso para uma unidade de saúde teve início por volta das 8h50 deste domingo (26). Somente por volta das 11h30, após passar por duas unidades hospitalares, o idoso foi atendido, mas, antes de chegarem na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Campos Salles, ele teve que aguardar do lado de fora, até que chegasse uma ordem para autorização de entrada do paciente.

“Foi feito um acordo, mas não estão querendo receber o paciente aqui [UPA Campos Sales]. É o terceiro local que a equipe do Samu passa. Passamos pelo Delphina Aziz e Platão Araújo, mas não quiseram receber o paciente por falta de leitos”, contou um funcionário do Samu.

A Susam informou ao G1, por meio de nota, que a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Campos Sales aceitou a internação do paciente após constatar a disponibilidade de vaga, sem comentar a demora no atendimento.

A reportagem acompanhou o momento de espera do idoso dentro da ambulância, que aguardava abertura de vaga em leitos na UPA. O homem respirava com dificuldades e estava entubado.

“Após ter as portas fechadas, o estado de saúde do paciente se agravou, tivemos que parar na base leste [do SAMU] para entubar o paciente. Depois, disseram que tinha uma vaga para ele aqui na UPA, chegando aqui, não estava existindo essa vaga e tivemos que esperar. Ele precisa de um respirador mecânico e não tem disponível”, contou o funcionário.

Questionado sobre as condições para o trabalho, o funcionário contou que “tá ficando cada vez mais agravante a situação”. Ele disse que já possui vários colegas afastados por conta da Covid-19.

“É lamentável presenciar a situação de andar com o paciente e não tem lugar para deixá-lo. Não iremos deixar o paciente em qualquer lugar se não tiver um médico responsável para receber. O compromisso é até o final”, contou.

Enquanto a reportagem do G1 esteve na UPA do Campos Salles, a dona de casa Lucimar Dias de Oliveira, de 53 anos, lamentou pela morte do pai, um idoso de 90 anos, durante a madrugada deste domingo (26). Moradora do bairro União da Vitória, na mesma região, ela disse que o pai apresentou os sintomas de Covid-19 há quatro dias.

O idoso teve gripe, tosse, febre e coriza. A dona de casa contou que fez chá caseiro para o pai, que apresentou melhoras. Ele tinha problemas cardíacos e voltou a passar mal.

“Passei essa madrugada com ele acordado e ele passando mal, pois não queria vir para a UPA. Ele dizia que sabia que se fosse para qualquer hospital, não voltaria. Tanto que ele disse: ‘Minha filha, se eu for para hospital, eu não vou voltar’. E, foi o que aconteceu”, disse.

A dona de casa enfatizou para que a população tenha cuidado e fique em casa, além de tomarem medidas de prevenção.

“Não sou nenhuma especialista, mas vocês podem deduzir que estamos sofrendo uma guerra, em todo canto tem gente morrendo. Não tem remédio que possa curar, eu perdi o meu pai hoje mas não vou fracassar de novo. Era eu quem andava com ele para cima e para baixo. Perdemos o meu pai, mas a guerra continua aqui para lutar contra essa doença. Isso não é brincadeira, faça isolamento”.

A Susam também destacou, por meio de nota, que a orientação dada à população desde o surgimento dos primeiros casos suspeitos de Covid-19 é buscar por atendimento em um dos nove SPAs, duas UPAs e três prontos-socorros da rede estadual , além das UBSs do município.

Unidades da Rede Estadual referência para atendimento de pacientes com síndrome respiratória:

HPS

  • Hospital e Pronto-Socorro (HPS) 28 de Agosto
  • Hospital e Pronto Socorro Dr Aristóteles Platão Bezerra de Araújo
  • Hospital e Pronto Socorro Dr. João Lúcio Pereira Machado

Serviços de Pronto Atendimento (SPAs)

  • SPA Alvorada
  • SPA Coroado
  • SPA Zona Sul
  • SPA Joventina Dias
  • SPA Eliameme Mady
  • SPA São Raimundo
  • SPA José Lins (Redenção)
  • SPA Antônio Aleixo
  • SPA Danilo Corrêa

Unidades de Pronto Atendimento (UPAs)

  • UPA Campos Salles
  • UPA José Rodrigues
  • Procurar também as UBSs do município

Saúde prestes a entrar em colapso

A taxa de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da rede pública de saúde do Amazonas chegou a 96%, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), nesta quinta-feira (23). Segundo a secretaria, o estado tem 222 leitos de UTI para atendimento de pacientes com o novo coronavírus.

A taxa de ocupação de salas rosas, para onde são levados pacientes de Covid-19 que não conseguem leitos nos hospitais, costuma a chegar na sua totalidade, de acordo com a secretária de saúde do Estado, Simone Papaiz.

“Sala rosa, chegamos a 100%. Varia muito de 95% a 100% de internação, dependendo do dia. Por exemplo, nós estávamos com 100% de capacidade operacional da sala rosa, no Hospital 28 de Agosto. Os leitos com maior taxa de ocupação são os de UTI. Por isso, estamos nos debruçando na questão de contratação de médicos intensivistas para poder ampliar os leitos de UTI. Este é um de nossos desafios”, disse.

Contêineres frigoríficos foram instalados em unidades hospitalares de Manaus para comportar corpos, por conta do aumento de mortes. A medida foi tomada a repercussão de um vídeo que mostra corpos com suspeita de Covid-19 posicionados ao lado de pacientes internados no Hospital João Lúcio.

Por conta do aumento de mortes, Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus tiveram que tomar medidas de extremas para atender a alta demanda de mortes. Na segunda (20), contêineres frigoríficos foram instalados no Cemitério Nossa Senhora Aparecida para comportar a alta demanda de caixões que estão sendo enviados de hospitais públicos da capital, muitos de vítimas do novo coronavírus.

Na última sexta-feira (17), dezenas de covas haviam sido abertas no cemitério para atender o aumento na demanda. Quatro dias depois, a Prefeitura abriu valas comuns, chamadas pelo órgão de trincheiras, para enterrar vítimas do novo coronavírus no cemitério público Nossa Senhora Aparecida.

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