Crédito: Rodrigo Ziebell/Ascom GVG

POR PAULA BARCELLOS/JORNALISTA DA REVISTA EMERGÊNCIA

Apesar de nenhum trabalhador do prédio ter se ferido, o incêndio ocorrido na sede da SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Rio Grande do Sul, em 14 de julho último, em Porto Alegre, traz à tona a questão da SST (Saúde e Segurança do Trabalho) dos bombeiros, já que dois oficiais do CBMRS (Corpo de Bombeiros Militar do RS) faleceram durante o combate.

Segundo o tenente-coronel Ederson Carlos Franco da Silva, coordenador-geral da ABERGS (Associação de Bombeiros do Estado do Rio Grande do Sul), o bombeiro militar atua em diversas missões constitucionais, por isto é importante o treinamento, o contingente e os equipamentos. “É importante destacarmos que mesmo que a sociedade, muitas vezes, compare o bombeiro militar com um ‘super-herói’, ele é um profissional que precisa atuar com segurança e proporcionar segurança aos demais membros da equipe”, destaca. Para ele, desde a emancipação do CBMRS da PM (Polícia Militar), a evolução na formação já vem crescendo, com cursos de praças e oficiais contendo conteúdos específicos de bombeiros militares, além de cursos de especialização e aprimoramento. “O CBMRS vem realizando cursos fora e trazendo instrutores de outros estados. Hoje, a instituição já conta com formadores aplicando conteúdos atuais e modernos para as realidades enfrentadas no Brasil”, avalia.

Por outro lado, o coordenador fala de pontos ainda nevrálgicos. “Ocorreram uma série de investimentos em viaturas de combate a incêndios. Contudo, a capital e outras cidades do estado ainda não contam com autoplataformas para combate elevado e mais autoescadas para salvamentos em construções verticais de elevada altura. O CBMRS também ainda não possui aeronaves e embarcações para atendimento, o que é lamentável e inconcebível para um estado do porte do RS”, diz.

Segundo o tenente-coronel Silva, outro desafio é em relação ao efetivo, um problema comum à maioria dos Corpos de Bombeiros Militares do Brasil. “O Rio Grande do Sul possui 3.000 militares atuantes na atividade fim e atividade meio (administração). Baseado no efetivo previsto e existente, a previsão seria de 4.101 para atender ao Estado hoje. Embora se formos falar em expansão do serviço, no mínimo mais 2.000 Bombeiros Militares, deveriam ser concursados.  Algumas cidades possuem mais de um quartel, permitindo o apoio se necessário em uma ocorrência, mas, em outras, este apoio demora ou não existe, sobrecarregando os militares e dificultando a tática e técnica a ser aplicada”, reflete. Ele avalia que falta uma política pública estadual e até mesmo nacional no âmbito dos bombeiros militares. “A ABERGS tem convicção que os comandantes que passaram pela instituição e o atual, bem como toda a tropa buscam fazer o melhor para atender à sociedade gaúcha. Mas precisamos de uma política governamental que compreenda que o bombeiro é essencial e insubstituível, que deve estar pronto para atuar em qualquer missão”, diz.

CBMRS

O tenente-coronel do CBMRS, Isandré Antunes de Souza, diz que qualquer trabalho que envolva condições operacionais de emprego de efetivo precisa de algumas observações para minimizar erros e efeitos danosos na atividade.  “Saber qual a condição emocional daquele efetivo para poder atuar, a condição física daquele profissional para estar atuando, se o EPI está adequado, se ele tem a capacitação técnica para estar naquele cenário específico e, por último, se ele tem a tecnologia, os recursos adicionais para fazer frente à determinada emergência. Os desafios para qualquer corporação é manter estes anteparos sempre presentes. O CBMRS não trabalha com conceito de super-herói ou de super-humano”, destaca.

Dentro disto, os treinamentos são fortes aliados segundo o tenente-coronel.  Ele diz que o treinamento e a capacitação são fundamentais desde o ingresso na corporação, de forma contínua, e não só para questão de resposta técnica individual do profissional, mas também para resposta integrada. Quando se treina de forma coletiva, o profissional vai entendendo qual a capacidade de resposta do outro, a própria limitação e o que é preciso em termos de complementação de recursos tecnológicos e inclusive de maior implementação ou redução de recursos humanos no cenário.

Os protocolos também são ferramentas usadas pelo CBMRS para garantir maior SST durante as atividades. O CBMRS tem protocolos específicos para eventos de média e alta complexidade, como o ocorrido no prédio da SSP. São protocolos relacionados com o tempo de permanência, alcance das equipes (número de componentes), Sistema de Comando de Incidentes, entre outros. “Também, e não só em ocorrências de grande complexidade, para o ingresso no cenário é obrigatório o equipamento de proteção a todos os integrantes”, cita o tenente-coronel Antunes.

O INCÊNDIO

De acordo com o comandante-geral do CBMRS, coronel Bonfanti, “as dificuldades de combate ao fogo foram grandes, uma característica de todos os grandes incêndios, especialmente em prédios altos”. Em entrevista ao portal GZH, o comandante comentou sobre os desafios. “Inicialmente não tivemos dificuldade para entrar no prédio, chegamos e fomos até o quarto pavimento, mas tivemos dificuldade de combate ao incêndio lá. No momento em que descemos para levar mais mangueiras, já não conseguimos mais chegar no quarto pavimento e já tinha o quinto pavimento com incêndio bastante forte, o que determinou recuo das guarnições e início do combate externo”. Segundo ele, a ação dos bombeiros fora do prédio teve problemas. “Tivemos que iniciar o combate a incêndio externo, onde também tivemos dificuldade, pela dificuldade de acesso e a nossa autoescada que não foi tão efetiva nesse combate”, disse para o portal GZH. Com o incêndio, o prédio teve desabamento parcial pelo colapso da estrutura. Paralelo ao combate ao incêndio, a corporação enfrentou outro desafio: o desaparecimento de dois bombeiros militares, o primeiro-tenente Deroci de Almeida da Costa e o segundo-sargento Lúcio Ubirajara de Freitas Munhós. A partir de então, uma complexa e extensa ação de resgate foi implantada até a localização dos corpos dos dois oficiais após uma semana de trabalho de buscas.

SAÚDE MENTAL

Segundo o tenente-coronel Silva, da ABERGS, em relação à saúde, é de extrema importância focar não só no condicionamento físico, que é extremamente exigido, mas também na saúde mental do bombeiro, em especial diante da perda de colegas de farda. “O Estado ainda deixa de lado estas situações, mesmo que a ABERGS alerte em diversos governos”, declara.

O tenente-coronel Antunes diz que o acompanhamento emocional no CBMRS se dá de forma imediata no cenário por meio de debriefings e de feedbacks na ocorrência para verificar qual a condição emocional de cada integrante e a sua capacidade de permanência no cenário. “Inclusive como nós trabalhamos com células de pronta resposta, com equipes formadas de até cinco integrantes, se um indivíduo desta célula não estiver fisicamente ou emocionalmente em condições de permanecer no cenário, toda célula é removida do cenário, pois pode comprometer a segurança coletiva”.  Segundo ele, para todos aqueles profissionais do CBMRS que atuam em eventos com a perda de um colega é obrigatório que façam uma avaliação emocional para permanecerem, retornarem ou se manterem nas atividades laborais.

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