Crédito: Arquivo CETESB

Posto de Comando

Quem atua em emergências químicas sabe o quanto é importante organizar a resposta emergencial. Esta ação envolve o estabelecimento de zonas de trabalho (quente, morna, fria e exclusão), conforme NBR 14064, e do Posto de Comando, dentre outras.

Imagine a ocorrência de um vazamento de amônia em uma empresa. Imagine que este vazamento está gerando uma nuvem tóxica de produto na atmosfera e que esta nuvem está atingindo uma comunidade próxima, intoxicando pessoas. Cenário complexo, não? Quem estaria envolvido na resposta emergencial? Muitas instituições certamente, dentre elas: Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Polícia Militar, Guarda Civil, órgão ambiental, órgão de trânsito, SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), setor da saúde (vigilância sanitária, epidemiológica, etc.), a própria empresa geradora do problema e, possivelmente, outras empresas da região caso exista um Plano de Auxílio Mútuo, além da imprensa local, é claro.

Se cada uma das instituições mencionadas chegasse à cena da emergência e simplesmente se dirigisse diretamente à zona quente (ou qualquer outra) para realizar seu trabalho, seguramente teríamos uma verdadeira bagunça na resposta emergencial e, possivelmente, a ocorrência de muitas outras vítimas. Para que isto não ocorra, a boa gestão das emergências preconiza que cada instituição, ao chegar à cena, deve se apresentar ao Posto de Comando, estabelecido por alguma instituição que chegou primeiro na cena. Ao fazer isto, a instituição toma ciência do que está acontecendo, do porte do evento, das áreas de risco e das necessidades do grupo coordenador. Esta instituição deve informar ao Comando os nomes de todos que compõem a sua equipe, seus recursos e de que forma poderá contribuir para o atendimento emergencial (capacidade de resposta). 

Aqueles que atuam nas grandes emergências químicas certamente estão acostumados com esta rotina e sabem da importância desta adequada conduta.

PC (Posto de Comando) é o local onde ocorre a reunião dos representantes (ou coordenadores) de cada instituição envolvida na resposta emergencial. O Posto de Comando é o cérebro da emergência. Ali são centralizadas todas as informações e tomadas todas as decisões sobre o andamento dos trabalhos, definidas as prioridades, divisão de tarefas, controle de recursos e de acesso à área quente, etc. Independe se o comando da emergência está sendo exercido por uma única instituição (comando único) ou se por diversas instituições (comando unificado).

O Posto de Comando permite a integração entre as instituições e um melhor planejamento da resposta, pois haverá um grupo de especialistas em diversas áreas dedicados a solucionar o problema. Desta forma, é minimizada a chance de ocorrência de falhas de comunicação e de contabilização de recursos, por exemplo, as quais podem comprometer a resposta emergencial.

CASE

Um triste exemplo de que a organização da emergência não foi adequada ocorreu no World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, onde 343 bombeiros morreram. O relato a seguir foi publicado no dia 7 de julho de 2002, no jornal New York Times e disponibilizado pelo Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. “[…] Durante toda a crise, os dois maiores departamentos de emergências, Polícia e Bombeiros, mal se falaram sobre a coordenação estratégica ou compartilharam informações sobre as condições dos prédios… Neste dia, o Corpo de Bombeiros não pôde dizer exatamente quantos bombeiros foram enviados para as torres e onde eles morreram. Em parte, porque as equipes que chegavam ao local da tragédia não se apresentavam aos seus superiores. Bombeiros, individualmente, embarcavam nos já sobrecarregados carros de incêndio, contrariando intencionalmente procedimentos operacionais que não permitem esta prática. Outros, que não tinham por perto uma viatura da corporação, se deslocavam para a área em carros particulares. […] Os bombeiros desceram e saíram do posto e já na rua pegaram caronas em viaturas policiais e ônibus. Um deles morreu quando ruiu a torre norte. Ele estava entre os 60 bombeiros de folga que morreram no WTC. Muitos evitavam e se desviavam dos postos de comando e dos comandantes, aos quais eles deveriam se apresentar para receberem instruções… […] Nenhum supervisor policial procurou o Posto de Comando, organizado no saguão, pelo Corpo de Bombeiros, para coordenar os esforços de salvamento. A Polícia estabeleceu seu próprio Posto de Comando três quarteirões de distância da esquina das Ruas Church e Vesey, razoavelmente distante do Posto de Comando do Corpo de Bombeiros”.

Pelo relato, fica claro que muitos procedimentos preconizados pelas ferramentas de gestão de emergências (SCI/SCO) não foram respeitados naquele episódio. Aquele evento se tornou um marco importante para os gestores de emergências, pois evidenciou a necessidade de aprimorar os aspectos de preparação de equipes e de coordenação de emergências.

Na próxima edição, mencionarei outros casos (nacionais e internacionais) nos quais a organização da resposta não foi adequada, gerando desagradáveis consequências.


Edson Haddad – Químico MSc e membro da Comissão Nacional do P2R2
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