Crédito: Ascom/Semduh

Hipoclorito de sódio

Na edição anterior, abordamos o tema “PC- Posto de Comando” e ao final da coluna mencionei que continuaria escrevendo sobre este tema. No entanto, em razão do momento atual que estamos vivendo, continuarei o tema PC para a próxima edição, pois, nesta abordaremos um assunto mais atual: o hipoclorito de sódio.

O hipoclorito de sódio, na sua forma bem diluída, é a conhecida água sanitária que praticamente todos têm em suas casas. Utiliza-se a água sanitária para limpeza (daquilo que podemos ver) e desinfecção (daquilo que não podemos ver como vírus, bactérias e fungos) de ambientes em geral, para lavagem de verduras, assim como alvejante de modo a remover manchas de tecidos brancos, dentre outros usos.

Além disto, temos visto que diversos municípios, como forma de minimizar a disseminação do coronavírus, passaram a utilizar água sanitária para realizar a lavagem de ruas e de calçadas. Mas, será que a água sanitária pode ser utilizada na mesma concentração para limpeza do lar e das ruas e calçadas? Quais os perigos e riscos associados ao hipoclorito na sua forma concentrada e diluída? Esperamos esclarecer tais dúvidas neste texto.

HIPOCLORITO

O hipoclorito de sódio é um sal obtido a partir da reação química entre o gás cloro e a soda cáustica. Sua fórmula química é NaClO e se apresenta na forma de solução aquosa com concentração que varia de 12 a 16% de hipoclorito (ou de cloro ativo, pois o hipoclorito se decompõe e libera cloro, por isto o termo cloro ativo). Contém ainda um residual de soda cáustica (até 0,7%). É levemente amarelado e possui odor penetrante e irritante. Nesta forma concentrada é utilizado, por exemplo, para tratamento de água e indústria de papel, dentre outros usos.

Para efeito de transporte rodoviário, o hipoclorito é classificado como uma substância corrosiva, cujo pH é de 12, portanto, trata-se de um produto alcalino e como todo produto alcalino pode causar severas queimaduras à pele, olhos e trato digestivo em caso de ingestão.

Na sua forma diluída, em torno de 2,0 a 2,5% de concentração de hipoclorito, é conhecido popularmente como água sanitária, lixívia ou cândida, que é vendida a varejo, sendo fácil de encontrar em qualquer mercado. Nesta condição diluída, a água sanitária não atende mais aos critérios de substância corrosiva para efeito de transporte rodoviário. No entanto, mesmo diluída continua sendo uma substância corrosiva (lembre-se que há soda cáustica), podendo causar lesões ou irritações à pele em caso de contato prolongado, sendo recomendável utilizar luva de proteção para o seu manuseio seguro.

USOS

Para limpeza de ambientes internos, onde há circulação de pessoas, os fabricantes recomendam uma expressiva diluição da água sanitária. Esta informação encontra-se no rótulo do produto e deve ser seguida rigorosamente pelo usuário. Via de regra, deve-se diluir 200 ml de água sanitária, a 2,0 ou 2,5% de concentração, em 10 litros de água para realizar limpeza e desinfecção do lar. Isto representa uma diluição de 50 vezes, portanto, a concentração da água sanitária a ser utilizada na limpeza estará próxima a 0,04%, muito diluída.  Além da concentração adequada, deve-se deixar a água sanitária em contato com a superfície a ser limpa por pelo menos dez minutos, de modo a garantir a desinfecção.

Já para a limpeza de ruas e calçadas a questão é mais delicada. A nota técnica da Anvisa nº 22/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA menciona que tal prática não tem sido recomendada (ainda) oficialmente pelos organismos de saúde internacionais (posição válida até 6 de abril de 2020), embora já esteja em prática em muitas cidades brasileiras. Por esta razão, a Nota Técnica recomenda que tal ação ocorra somente em pontos da cidade com maior circulação de pessoas e que sejam utilizados produtos regulamentados na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ou Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Recomenda-se utilizar água sanitária a 1% de concentração para limpeza e desinfecção de ruas e calçadas, portanto, esta forma mais concentrada irá requerer maiores cuidados na aplicação. A concentração deve ser maior para limpeza de ruas e calçadas, pois, nestes locais, há muito mais sujeira, metais e matérias orgânicas que reagirão com o hipoclorito e causarão a sua eliminação, não permitindo a sua ação como agente desinfetante.

Por se tratar de um local público, é necessário, conforme recomendação da Nota Técnica, notificar a população sobre o que está sendo feito, de modo que não ocorra sua exposição indevida ao produto. Também não se recomenda o uso de veículos utilizados para distribuição de água, pois a concentração do hipoclorito a ser utilizado é alta, podendo contaminar a água a ser distribuída posteriormente.

Com relação aos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), a equipe de desinfecção deverá usar luvas, botas, máscaras e aventais durante todo o procedimento. Após o trabalho, os integrantes da equipe devem remover os EPIs com cuidado, bem como limpar as mãos com frequência com água e sabonete ou álcool gel 70%, inclusive imediatamente após remover as luvas.

Também podem ser utilizados os compostos de quaternário de amônio para desinfecção. Independentemente do produto a ser utilizado deve-se sempre ler e atender as recomendações constantes nos rótulos dos produtos e em suas respectivas FISPQs. E lembre-se: nunca misture produtos de limpeza.


Edson Haddad – Químico MSc e membro da Comissão Nacional do P2R2
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