Temos que estar preparados, infelizmente outros desastres virão

No final de 2019 aceitei o convite da editora da Revista Emergência, para manter um blog na plataforma digital da revista, que ainda viria a ser criada no ano seguinte, para falar sobre Segurança Humana. O título escolhido para o blog – Proteja-se – expressava bem a visão de que a humanidade sempre enfrentou e continuará enfrentando várias situações de desastres, e que para sobrevivermos a elas, será necessário proteger-nos sempre.

Vi essa oportunidade como um novo desafio que iria complementar a atuação como consultor técnico da revista desde 2011. A motivação maior para ter aceitado o convite foi a seriedade, competência, imparcialidade, visão puramente técnico-científica e profissional com que a Revista Emergência sempre tratou, desde a sua criação em 2006, a divulgação de assuntos sobre a temática da defesa civil. Curiosamente, nesse mesmo ano senti também a necessidade de criar um Programa de Mestrado em Defesa e Segurança Civil na Universidade Federal Fluminense, sendo este o primeiro e único do país, até a presente data, nesse domínio.

Falar de desastres sempre foi um assunto delicado e muito sensível do ponto de vista político. A má gestão de um desastre pode derrubar uma carreira política, da mesma forma que o contrário poderá alavancá-la. Escrevi neste blog um artigo sobre “A difícil tarefa de divulgação de ameaças e desastres”, que deve ser feita sempre com responsabilidade, alertando para os riscos que certas ameaças representam, de forma a manter a população e as autoridades em situação de alerta. Ao induzir ações de precaução, prevenção e autoproteção, será possível evitar ou minimizar os danos socioambientais e principalmente, garantir a preservação da vida. Essa sempre foi a linha editorial da Revista Emergência que deveria ser seguida por todos os veículos de comunicação do país sobre o tema. Infelizmente não é o que temos visto nos últimos tempos. A responsabilidade e imparcialidade das notícias sobre desastres são vitais para que não se ultrapasse a linha do medo, que geralmente é protetivo, para o pânico, alarmista e paralisante.

No dia 10 de fevereiro de 2020, com o início das atividades da plataforma Emergência+ na internet, publiquei o primeiro artigo, intitulado Novo Coronavírus ou 2019-nCoV. Como especialista na área, já estava acompanhando as notícias vindas da China sobre o surgimento de um novo vírus, que começava a preocupar alguns médicos nas emergências; mas naquele momento, ninguém imaginava a dimensão que tal evento poderia tomar, atingindo praticamente todo o planeta e vitimando mais de um milhão de pessoas até a presente data. Mal poderia vislumbrar que a estreia como “blogueiro científico” na área de defesa civil, coincidiria com o início de um evento de tamanha magnitude, com o poder de paralisar o mundo, provocando a morte de milhares de pessoas em diversos países em pouco mais de oito meses, confinando outros milhões em suas residências e provocando um choque econômico, em escala planetária jamais vista, a não ser em situações de conflitos mundiais. A primeira morte de um cidadão brasileiro por Covid-19 só ocorreria um mês após, no dia 17.03.2020, em São Paulo.

Ao longo dos últimos dez meses o mundo não falou de outra coisa. Número crescente de mortos e infectados, colapso nas estruturas de saúde, desemprego em massa, construções de hospitais de campanha em tempo recorde, bloqueio de cidades e regiões inteiras, interrupção das viagens nacionais e internacionais, cidades vazias, comércio, bares e restaurantes fechados, atividades culturais paralisadas. O mundo parou. Bruscas mudanças de comportamento ocorreram, uso obrigatório de máscaras e álcool gel, desinfecção de tudo o que for possível, a fim de evitar a doença. E nesse clima de pânico, o que se viu foi uma busca desenfreada por audiência na mídia, a superexposição de alguns atores nos meios de comunicação, os desonestos buscando lucrar com vendas de insumos superfaturados, a guerra de narrativas em um contexto político-ideológico, os discursos e mensagens falsas e tudo se sobrepondo àquilo que deveria ser o mais importante: a preocupação com a saúde física e mental das pessoas. A guerra continua, agora em relação às vacinas contra a covid que já vêm criando nova expectativa de mais um grande negócio ligado à pandemia, disputado por centenas de empresas em uma dezena de países. Quais serão os lucros auferidos com a vacinação anual de toda a população do planeta? Esse é o tamanho do jogo.

Mas vamos analisar certos números com um olhar mais positivo, consultando os dados disponíveis no 22.10.2020 no site do Worldometers, dados esses que, em escala mundial, variam a cada segundo; portanto eles serão arredondados. Podemos anotar que a população mundial é de 7,8 bilhões de pessoas. Destas, 41,8 milhões foram infectadas pelo Coronavírus (0,5%) e 1,1 milhão faleceram (0,014%). Das infectadas, 31 milhões (74,1%) foram curadas e 9,6 milhões estão em tratamento sendo que destas 99% em condições moderadas e apenas 1% em situação crítica. Para efeito comparativo 47,6 milhões de pessoas morreram, nos primeiros dez meses deste ano, de outras causas no mundo.

Fazendo os mesmos cálculos para o Brasil, temos atualmente uma população estimada em 213 milhões de pessoas, com 5,3 milhões de infectados (2,4%). Os mortos por Covid são 155 mil (0,07% da população total) e de 2,9% em relação aos infectados. As pessoas curadas já somam 4,75 milhões o que corresponde a 89,6% daquelas acometidas pela doença. Pouco se fala desse número expressivo, resultado do trabalho heróico das equipes de saúde em todo o país. Das pessoas em tratamento, 98% estão em condições estáveis e somente 2% em situação crítica.

Esses números nos ajudam a entender melhor o alcance da pandemia de Covid-19 no Brasil e no mundo com uma visão de saúde pública e de quanto a humanidade vem evoluindo em relação ao combate das epidemias e pandemias nos tempos atuais. Os últimos indicadores do Ministério da Saúde demonstram que tanto o número de novos casos de infecção quanto, e principalmente, o número de mortes diárias no Brasil estão em tendência de queda nos últimos meses. Saímos de um patamar de mais de mil mortes/dia para menos da metade. Mas ainda assim são números trágicos, que causaram e têm causado dor e sofrimento a milhares de pessoas no país. Quando trabalhamos com dados estatísticos em relação a vidas humanas é sempre bom lembrar que a morte de uma pessoa representa 100% de perda para uma família e, portanto não deve ser nunca minimizada. Dessa forma não podemos baixar a guarda lembrando sempre que, apesar da baixa letalidade da doença demonstrada ao longo deste ano, para mais de um milhão de pessoas no mundo ela foi fatal. Continue se protegendo.


O blog Proteja-se trata de segurança humana de uma forma geral, pois nenhum sistema de proteção civil do mundo consegue garantir a total segurança do indivíduo sem que o mesmo adote procedimentos de autoproteção. O blog quer ajudar a desenvolver no Brasil a cultura da autoproteção. O autor do blog é Airton Bodstein, Doutor em Química Ambiental pela Université de Rennes I, França e Pós-doutorado na Oregon State University, EUA. Fundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Fundador e atual Presidente da ABRRD – Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastres.
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