O gestor de Defesa Civil e a necessidade de um conhecimento mais abrangente

Quando falamos em conhecimento humano temos que voltar à época dos filósofos, começando por Thales de Mileto no século VI a.c., que viveu na cidade de Mileto localizada no litoral jônico da Ásia Menor, que hoje integra a parte asiática da Turquia. Uma característica dos principais filósofos, desde a Grécia antiga até o século XX, que chama a atenção dos estudiosos da ciência nos dias de hoje, é o domínio que aqueles pensadores possuíam sobre diferentes campos do conhecimento. Thales possuía conhecimentos de astronomia, geometria e técnicas de manejo do solo e da água; Pitágoras era matemático e místico; Aristóteles escreveu sobre lógica, física, história natural, psicologia, política, ética e artes; Sócrates se interessou muito pelas questões éticas e humanas, sendo um grande questionador das teses e princípios da época, o que lhe custou uma condenação à morte. Esse conhecimento eclético dos filósofos contrasta bastante com a lógica vigente nos dias atuais, das especialidades e consequentemente, dos especialistas em determinada área ou assunto.

Ao longo dos séculos o conhecimento acumulado pela humanidade foi sendo dividido, para efeito didático e de aprendizado, em grandes áreas, como as ciências sociais, exatas e saúde; cada uma delas foi também distribuída em diversas subáreas, como sociologia, ciência política, antropologia, engenharia, física, química, matemática, medicina, farmácia, odontologia, isso para citar apenas as principais. Esse afunilamento científico não parou mais de se ramificar originando centenas ou milhares de especialistas em uma imensa gama de assuntos específicos. Essa tendência também passou a vigorar no campo profissional, com uma maior valorização do especialista em detrimento do dito generalista, sendo o primeiro geralmente mais reconhecido tecnicamente e em consequência melhor remunerado que o segundo.

No que tange aos processos de gestão, a alta complexidade dos problemas a serem enfrentados e equacionados na sociedade atual, criou a necessidade de formação de profissionais com um largo espectro de conhecimento, capazes de entender as diversas variáveis que compõem um determinado problema e de separá-las por categorias. Essa abordagem torna mais fácil resolver o problema partindo das partes para o todo, muitas vezes com a ajuda de diversos especialistas em cada uma dessas variáveis. Parece que estamos voltando aos tempos dos antigos filósofos que sempre tiveram uma visão do todo nas relações humanas e do homem com o seu meio. Lembro-me da frase de um famoso comentarista esportivo de um canal de televisão afirmando que, nos dias de hoje, não há mais espaço, no meio profissional, para um comentarista que entenda somente de uma determinada modalidade esportiva. O profissional atual necessita ter conhecimento suficiente para comentar qualquer uma delas. É comum ver hoje um mesmo jornalista esportivo comentando uma luta de boxe, uma corrida de fórmula um, uma partida de basquete ou um jogo de futebol, assim como várias outras competições esportivas.

Nessa linha de raciocínio, o gestor de defesa civil atual deverá ser também um profissional multitarefa, com amplos conhecimentos sobre as diversas ameaças que podem provocar sérios danos ao seu município, estado ou nação. Tem que estar habilitado e preparado para enfrentar desde eventos localizados, como pequenos incêndios ou alagamentos após fortes chuvas até os grandes desastres provocados por deslizamentos de massa, fortes enxurradas, inundações, acidentes rodoviários, fortes ventos, trombas d’água, furacões, raios, chuva de granizo ou ainda um acidente radiativo, sem falar naqueles desastres de baixa probabilidade em nosso país, mas não impossíveis de ocorrerem, como os terremotos e tsunamis. Esses eventos por si só, já demandam um conhecimento bastante amplo por parte do gestor de defesa civil, tanto local quanto estadual ou regional para montar os seus planos de contingência. Mas no caso do gestor de defesa civil ocupar um cargo de coordenador ou de secretário municipal de defesa civil, também precisará conhecer técnicas de gerenciamento de pessoal, relacionamento social, controle de finanças e principalmente uma boa dose de experiência na política local. A capacidade em montar e gerir equipes multidisciplinares e o bom relacionamento com as comunidades mais vulneráveis também são exigências do novo profissional de defesa civil. É preciso aliar as técnicas e conhecimento das ciências que atuam diretamente na origem do problema como efeitos meteorológicos intensos, fragilidade do solo, ocupação irregular de áreas sensíveis a uma grande sensibilidade para com as ciências sociais, as quais possuem forte influência no grau de vulnerabilidade de uma população.

Para finalizar, não menos importantes, são as diversas parcerias e protocolos de cooperação que têm que ser estabelecidos para o enfrentamento de grandes eventos por parte do gestor local (entende-se aqui o coordenador de defesa civil municipal): a participação da academia, na geração da pesquisa, os órgãos estaduais, regionais e federais atuando na redução de risco de desastres (RRD), as empresas de grande porte (por exemplo, a Vale e a Petrobras), e por último as Forças Armadas, que já vêm ao longo dos anos desempenhando várias ações de apoio à defesa civil em situações extremas, com grande estrutura logística, capilaridade em todo o território nacional e alta capacidade de planejamento para as ações de prevenção.

Diante desse contexto, o gestor de defesa civil deve, em linhas gerais, estabelecer um diagnóstico das competências que lhe cabem, somado à capacitação e conhecimento exigidos pelo cargo. Gestores de defesa civil qualificados, melhor proteção para a população.


O blog Proteja-se trata de segurança humana de uma forma geral, pois nenhum sistema de proteção civil do mundo consegue garantir a total segurança do indivíduo sem que o mesmo adote procedimentos de autoproteção. O blog quer ajudar a desenvolver no Brasil a cultura da autoproteção. O autor do blog é Airton Bodstein, Doutor em Química Ambiental pela Université de Rennes I, França e Pós-doutorado na Oregon State University, EUA. Fundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Fundador e ex-Presidente da ABRRD – Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastres.
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