Novos desafios da Defesa e Segurança Civil

O objetivo maior da Defesa Civil é preservar vidas, reduzindo os riscos de morte prematura e criando as condições necessárias de proteção a fim de que a população possa viver mais e melhor em respeito ao ciclo natural da vida. Dentro dessa visão é importante considerar a expectativa de vida de cada cidadão ao redor do mundo. O Japão com uma média de expectativa de vida de 83,7 anos é a nação mais bem situada em relação a esse quesito no mundo. Já são mais de 65 mil pessoas com idades acima dos cem anos, sendo 87,6% de mulheres. Para um país com uma população de cerca de 126 milhões de habitantes, isso representa 0,05% da população. No Brasil já são mais de 24 mil pessoas que ultrapassaram a faixa dos cem anos de idade, sendo 71% mulheres e a média de expectativa de vida é de 75,5 anos. Para a nossa população de cerca de 207 milhões de habitantes, representa 0,01% da população, lembrando que a média mundial é atualmente de 71,4 anos, de acordo com os dados da OMS.

Dessa forma, as mortes consideradas prematuras de pessoas serão ocasionadas por doenças diversas, mas também por acidentes e desastres. A referência mundial de um grande desastre com registro científico ocorreu em Lisboa, Portugal em 1º de novembro de 1755, tendo sido documentado pelo Marquês de Pombal, Secretário de Estado do governo português à época e futuro primeiro-ministro. A catástrofe teve inicio com um forte terremoto que provocou grandes incêndios e foi seguida de um tsunami que devastou Lisboa e matou milhares de pessoas. Um desastre triplo semelhante ocorreu em 11 de março de 2011, na cidade de Fukushima no Japão. Também teve inicio com um forte terremoto de 8,7 de magnitude na escala Richter, seguido de um tsunami com ondas de trinta metros de altura e vazamento de material nuclear. Eu tive a oportunidade de visitar Fukushima dois anos após o desastre e ver de perto os perigos e danos provocados pela radiação.

Apesar do forte impacto que essas tragédias provocaram elas estavam localizadas em um determinado país, o que não foi o caso das duas grandes guerras mundiais e diversas epidemias que assolaram o mundo na história recente. Agora o mundo vive um novo desastre em escala mundial com a Covid-19 e por isso é a noticia mais veiculada em todo o planeta nos dias de hoje. Confesso que já estou um pouco cansado de ler e escrever sobre o tema. Aliás, estamos todos cansados da quarentena, ansiosos para voltar ao trabalho, à escola, aos hábitos do cotidiano, de fazer reuniões em família, com amigos, de ver notícias diferentes nos telejornais diários além da pandemia; chega de ver imagens de hospitais, cemitérios, ranking de mortos e contaminados dia e noite na TV. Temos que lamentar os que se foram e respeitar a dor dos seus próximos, mas precisamos continuar a cuidar dos vivos. Desconheço o autor da frase de que o ano de 2020 será o novo marco mundial AC/DC, antes e depois da Covid, mas ela vem sendo fartamente citada na mídia e incluída em vários textos de diversos especialistas. Todos concordam que haverá fortes mudanças de comportamento na população mundial pós-pandemia.

Experiências ruins servem também para valorizarmos mais as coisas boas e simples da vida e certamente isso ocorrerá agora em todo o mundo, como ocorreu após os primeiros anos da década de 50 no pós-guerra. Mas apesar de toda a dificuldade pela qual o mundo vem passando atualmente, não podemos fazer um comparativo, nem de perto, com uma situação de guerra, com mortes, destruição e sofrimento de milhares ou milhões de pessoas. Fala-se em economia de guerra, orçamento de guerra, situação de guerra, forte exagero para justificar um sem número de novas atitudes e comportamentos sociais, culturais e econômicos em função da pandemia. Talvez porque, felizmente, o país nunca tenha vivenciado uma experiência de guerra real e generalizada em seu território.

Longe de um cenário de guerra é fato que várias mudanças de hábito e comportamento ocorrerão na sociedade brasileira. O uso das máscaras em casos de viroses, principalmente no inverno, deverá fazer parte do novo cotidiano como há muito já fazem os orientais, assim como os procedimentos de higiene pessoal; somente essas duas mudanças de comportamento certamente levarão menos pessoas aos hospitais em função de doenças respiratórias e outras viroses sazonais nas próximas décadas. A experiência do confinamento e do uso de máscaras de proteção individual também poderá ser útil em caso de novas tragédias de grande porte, como por exemplo, um acidente nuclear.

O Brasil vivenciou em 1987, uma experiência de acidente radiológico na cidade de Goiânia com o Césio-137 e apesar das perdas humanas, muito se aprendeu sobre os protocolos de contaminação e resposta em casos como esse, principalmente nas unidades hospitalares. Dois grandes desastres nucleares, o de Chernobyl na Ucrânia em 1986, e o de Fukushima no Japão em 2011, colocaram o mundo em alerta com relação aos riscos que envolvem as centrais nucleares para geração de energia. A Central Nuclear de Angra dos Reis se situa a 150 km do Rio de Janeiro e a 360 km de São Paulo, as duas maiores regiões metropolitanas do país. Há pesquisas que indicam efeitos graves de radiação até 450 km de distância da usina de Chernobyl, o que colocaria essas duas regiões na área de risco de Angra. Os defensores da segurança dessas usinas apresentam vários argumentos com base no plano de contingência contra vazamentos nucleares da Central de Angra, reforçando inclusive que essas usinas têm concepção técnica diferente daquela de Chernobyl e garantem não haver nenhum risco que um improvável vazamento de material radioativo possa atingir essas capitais. Mesmo assim, existe uma população de mais de 200 mil habitantes na cidade de Angra dos Reis, que sofreriam diretamente os impactos de um acidente como esse.

Sabemos que a Alemanha iniciou um plano de desativação, até o final de 2022, de todas as suas usinas nucleares após o desastre de Fukushima e reconversão para fontes de energia renováveis por conta da segurança para a sua população. Num ponto, tantos os defensores do nuclear quanto os contra concordam: a possibilidade de acidente é mínima, mas quando se fala em defesa civil um conceito é primordial: não existe risco zero e em um caso de acidente nuclear os danos são muito graves.

Há pouco menos de um ano quem diria que o mundo seria atingido por uma pandemia como a Covid-19? Quem estava preparado para enfrentá-la? Os países mais ricos da Europa foram os primeiros atingidos com mais de 150 mil mortes, depois os EUA, a maior potência econômica do mundo já soma mais de cento e sessenta mil mortos. O Brasil já ultrapassou a marca dos cem mil mortos e até a data de hoje a Covid-19 já ceifou a vida de mais de 700 mil pessoas em todo o mundo. E tanto as autoridades chinesas quanto a Organização Mundial de Saúde afirmaram, em janeiro de 2020, que não havia nenhum risco de perda de controle sobre a doença que se iniciava na China. Talvez seja o momento do país, – governo e iniciativa privada – de forma preventiva, começar a pensar na criação de cadeias de produção em massa, de máscaras de proteção radioativa, medidores portáteis de radiação, medicamentos, fitas adesivas e outros materiais para isolamento de residências, sem depender de fornecedores externos que detenham o monopólio desses produtos. Também a definição de estratégias de comunicação de massa, confiáveis e sem produzir pânico, fornecendo orientação segura e embasada sobre uso de medicamentos necessários para a proteção da população, em caso de um acidente nuclear no território brasileiro. E falando como cidadão, um kit antirradiação em casa, com preços justos, talvez seja um bom investimento para o futuro. Vamos aprender com os erros e acertos do passado; chega de surpresas e improvisos em se tratando da preservação da vida das pessoas.


O blog Proteja-se trata de segurança humana de uma forma geral, pois nenhum sistema de proteção civil do mundo consegue garantir a total segurança do indivíduo sem que o mesmo adote procedimentos de autoproteção. O blog quer ajudar a desenvolver no Brasil a cultura da autoproteção. O autor do blog é Airton Bodstein, Doutor em Química Ambiental pela Université de Rennes I, França e Pós-doutorado na Oregon State University, EUA. Fundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Fundador e atual Presidente da ABRRD – Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastres.
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