Memoriais de desastres – homenagem e prevenção

Os memoriais de desastres têm o duplo papel de prestar uma homenagem às vítimas desses eventos, mas principalmente de manter viva a imagem da tragédia com o objetivo de evitar que fato semelhante venha a ocorrer novamente, ou na impossibilidade de evitá-los reduzir ao máximo a perda de vidas. Existe uma tendência natural das pessoas em guardar na memória os bons momentos da vida e procurar esquecer aqueles que produziram tristeza ou sofrimento. Dessa forma é bastante comum que cidades ou regiões que sofreram acidentes graves se esforcem por apagar as lembranças da tragédia, algumas vezes até para que atitudes equivocadas que foram tomadas ou que deixaram de ser consideradas, não fiquem explícitas e que não se busque culpados por falhas de atitudes individuais ou coletivas.

Há também aqueles que não querem associar a imagem dos seus municípios, tanto os próprios cidadãos quanto os governantes, a situações trágicas, argumentando que isso poderia contribuir para uma sensação de insegurança coletiva que poderia vir a prejudicar a atividade econômica local, principalmente no que se refere ao turismo de lazer ou à realização de grandes eventos.

Mas a realidade é exatamente oposta. Muitos memoriais de desastres ocorridos no passado se tornaram atração turística de muitas cidades e países ao redor do mundo e a grande afluência de pessoas a esses locais permite ao visitante, não só reviver um momento difícil da história que afetou centenas ou milhares de pessoas, mas também conhecer todas as iniciativas que foram adotadas, a partir daquele evento negativo, para evitar que se repitam. É o que se chama de legado positivo de uma tragédia. Como exemplo, posso citar o Museu Memorial do Terremoto de Kobe, na cidade de mesmo nome no Japão, que visitei em 2013, durante uma viagem de cooperação científica com a Universidade de Kyoto. Esse memorial foi dedicado às mais de seis mil vidas perdidas durante o Grande Terremoto de Hanshin-Awaji de 1995, que durou menos de um minuto e que também destruiu centenas de milhares de casas deixando milhares de pessoas desabrigadas. O museu é bastante interativo: com a utilização de tecnologia audiovisual sofisticada, com imagens e gravações originais do exato momento do tremor, imerge o visitante naquele ambiente de terror da terça-feira, 17 de janeiro de 1995. Mas além da experiência quase real – e realmente assustadora – de vivenciar um terremoto, o museu oferece uma verdadeira aula de prevenção de desastres sísmicos, com todas as orientações necessárias à redução de danos graves às pessoas em situações semelhantes. Há também uma área de exposição de toda a tecnologia japonesa utilizada atualmente na prevenção de terremotos, e o que percebi, provocava uma sensação de orgulho em alguns visitantes nativos com os quais interagi e que demonstravam um sentimento de que a cidade hoje e o país como um todo, é muito menos vulnerável aos sismos, e que mesmo com a possibilidade de ocorrência de um novo evento, fato comum naquele país, se sentem mais seguros.

O Memorial e Museu Nacional do 11 de setembro foi construído no local onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York, Estados Unidos, que foram atacadas e destruídas nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Foi inaugurado em 11 de setembro de 2011, exatamente dez anos após o ataque, tendo sido planejado para lembrar as milhares de vítimas e também as centenas de profissionais envolvidos no resgate, que perderam as suas vidas. Um ano após a sua inauguração o memorial já havia recebido mais de 4,5 milhões de visitantes, originários de mais de 170 países.

No Brasil não se tem a cultura de grandes obras para lembrar vítimas de desastres. Em 22/11/2018, data em que o maior desastre de origem natural de Santa Catarina completou 10 anos, foi inaugurado o Memorial no Morro do Baú no município de Ilhota, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina em homenagem às 135 vítimas da tragédia ocorrida naquele local em 22 de novembro de 2008. Moradores do vale foram atingidos por alagamentos e deslizamentos de terra provocados pela chuva na região do Morro do Baú. Mais de 1,5 milhão de pessoas foram atingidas. Ao todo 135 morreram, 5.617 pessoas ficaram desabrigadas, 27.236 ficaram desalojadas e seis desapareceram. Na região, 14 cidades decretaram situação de calamidade pública e outras 63 de emergência.

Dois anos após a tragédia em Brumadinho, o memorial projetado para ter 1,2 mil metros quadrados de área construída ainda não saiu do projeto; o local da construção está abandonado apesar de o governo do estado ter declarado que a construção do memorial era um ponto de honra para o governador e o seu governo.

Três desastres de grande importância que aconteceram no estado do Rio de Janeiro, talvez merecessem estudos para a construção de memorais individuais ou até reunidos em um único ambiente. Em Niterói ocorreram dois deles: o incêndio do Circo e o desastre do Morro do Bumba. Com maior amplitude, envolvendo vários municípios fluminenses foi o grande deslizamento na Região Serrana. O incêndio do Gran Circus Norte-Americano, ocorrido em 17 de dezembro de 1961 na cidade de Niterói no Rio de Janeiro, foi um ato criminoso que resultou na morte de513 pessoas (70% delas crianças), que assistiam a um espetáculo circense e mais de 2.500 feridos. Em função da dimensão do desastre, mudanças significativas ocorreram quanto à segurança das instalações circenses como, por exemplo, a substituição de lonas de algodão parafinado – material altamente inflamável -, por lonas importadas à prova de fogo, obrigatoriedade de saídas de emergência, extintores de incêndio e brigada anti-incêndio. A necessidade urgente de realização de cirurgias reparadoras em centenas de crianças deu origem à criação do Serviço para atendimento de queimados na Santa Casa de Misericórdia que foi o embrião do desenvolvimento da cirurgia plástica no Brasil, comandada pelo então jovem cirurgião Ivo Pitanguy.

Os desastres do Morro do Bumba em 2010 e da Região Serrana em 2011, além do grande número de mortos, feridos e desabrigados que produziram, afetando milhares de famílias fluminenses, marcaram o início de novos paradigmas da defesa civil brasileira, tanto no aspecto legal, com a criação da Lei nº 12.608 de abril de 2012, quanto na organização de um sistema nacional de proteção e defesa civil que a cada ano se torna mais robusto e eficaz. Um memorial que registrasse bem a gravidade desses desastres, prestando uma homenagem às vítimas e confortando os familiares com a mensagem de que os seus entes queridos jamais serão esquecidos, certamente terá um efeito preventivo e trará mais segurança e proteção para a população em situações futuras.


O blog Proteja-se trata de segurança humana de uma forma geral, pois nenhum sistema de proteção civil do mundo consegue garantir a total segurança do indivíduo sem que o mesmo adote procedimentos de autoproteção. O blog quer ajudar a desenvolver no Brasil a cultura da autoproteção. O autor do blog é Airton Bodstein, Doutor em Química Ambiental pela Université de Rennes I, França e Pós-doutorado na Oregon State University, EUA. Fundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Fundador e ex-Presidente da ABRRD – Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastres.
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