Pandemia do coronavírus – 1ª temporada

À semelhança de uma série dramática da TV paga, baseada em fatos reais, a pandemia atual, infelizmente, é bem real e assustadora. A pandemia da Covid-19 possui um enredo cheio de personagens e situações que vão se desenrolando ao longo do tempo, prendendo a atenção dos espectadores a partir da inclusão de novos fatos, quase que diariamente ou semanalmente, sempre alimentada pela imprensa, a fim de manter uma permanente situação de imprevisibilidade em relação ao final da história. Primeiro, o desinteresse pelo tema, depois a atenção a certos fatos e finalmente uma imersão na trama e nos seus personagens, tanto os atores principais quanto um grande número de coadjuvantes.

Esta história teve início no final do ano de 2019 e como em todos os anos anteriores, as pessoas estavam pensando nas festas de Natal e no Novo Ano que se aproximava, cheias de esperanças e motivação, cada um na sua forma de pensar e agir em relação às suas expectativas futuras. Quando as primeiras notícias vindas da China começaram a especular sobre um novo vírus detectado na cidade de Wuhan, todo o mundo acreditava tratar-se de mais um surto viral, localizado e distante, do tipo Ebola que atingiu o oeste da África em 2013, ou aquele da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) também na China em 2002, ou ainda da Gripe Aviária em Hong Kong em 2003. Longe e distante, portanto não havia com o que se preocupar; havia outros problemas mais relevantes para serem resolvidos. As autoridades sanitárias dos países envolvidos e a OMS dariam conta dos problemas nesses países uma vez que, também elas, não deram muita importância ao fato.

Em 2009 a OMS havia anunciado a presença, no México, de um vírus com potencial pandêmico. Inicialmente chamada de gripe suína depois denominada de gripe H1N1, que apesar de ter se disseminado pelo mundo, causando quase 20 mil mortes, não causou medo e pânico na população, mesmo tendo atingido mais de 200 países, sendo esta a primeira pandemia do século 21. No caso do Novo Coronavírus o cenário foi bem diferente. A velocidade com que se espalhou pelo mundo e o número de mortes provocadas pelo vírus, em larga escala e em tão pouco tempo, abalou o planeta. Como já disse em outro artigo, o que impacta as pessoas não é necessariamente o número total de óbitos, mas sim um número elevado em curto espaço de tempo. No caso do coronavírus essa relação é brutal a ponto de colapsar as estruturas de saúde de vários países antes considerados bem equipados.

Mas voltando à analogia da pandemia com uma série de streaming, no caso real as pessoas também não descolaram os olhos da TV em busca de notícias e infelizmente elas são mais negativas do que positivas. A 1ª temporada que se iniciou em janeiro de 2020 teve nos seus primeiros capítulos, a apresentação dos atores principais: o coronavírus, com a sua imagem real cheia de espinhos, os médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem além de outros profissionais da saúde, os hospitais e os cemitérios. Nos capítulos seguintes vieram novos atores: sanitaristas, virologistas, epidemiologistas, infectologistas e tantos outros especialistas em epidemias que o público leigo passou a dominar o conhecimento sobre os agentes virais e suas consequências para a saúde humana, mesmo sendo as informações passadas muitas vezes contraditórias.

No meio da temporada a trama alimentou uma grande batalha política, com objetivos mais eleitorais do que sanitários, envolvendo personagens de todos os poderes constituídos, em todos os países afetados pela pandemia. Os grupos de oposição viram na pandemia uma oportunidade para derrotar o adversário e em alguns casos, foram bem sucedidos e aqueles que detinham o poder, também se utilizaram da doença para tentar se perpetuar no poder. Essa briga continua ferrenha nos capítulos atuais.

Alguns episódios foram dedicados a uma intensa discussão sobre possíveis medicamentos que pudessem combater a doença, mas até a presente data, esse enredo ainda não mostrou um resultado efetivo. Um fato que começava a aparecer para trazer um pouco de ânimo para o espectador era a possibilidade de desenvolvimento de uma vacina, que já estava em fase de pesquisas em vários países. A ideia que os autores deixavam no ar sobre as vacinas era a de que, quando viessem, tudo estaria resolvido, tanto do ponto de vista sanitário quanto econômico.

As discussões econômicas passaram a ser outro grande tema da série em que se colocava a questão da escolha para o público entre a saúde e o emprego. Algo tão complexo que poucos conseguiam entender, principalmente porque os argumentos usados traziam sempre uma carga de interesse político muito elevada e, portanto pouco elucidativa e convincente. Nunca a palavra Ciência foi tão utilizada, de acordo com o interesse de cada um. O conhecimento gerado pela ciência passou a ter um significado quase divino, inquestionável, absoluto, a verdade suprema. Supremacia jurídica também entrou no vocabulário do cidadão comum.

Já no final da temporada, os últimos episódios do ano anunciaram enfim, a chegada das vacinas e quando o público ficou mais aliviado, vieram as notícias sobre mutações do vírus que poderiam tornar as tão esperadas vacinas, ineficazes. O pânico continuava a ser estimulado e a audiência mantida em alto grau. Então, os autores pensaram em alguns fatos que poderiam ser introduzidos no enredo, como vacinas de vento, ou comércio paralelo de doses de vacinas. Algo bem típico dos filmes e novelas e qualquer semelhança com fatos verdadeiros são pura coincidência.

Continuamos todos agora acompanhando a 2ª temporada, já lançada em 2021 com o recrudescimento da doença em escala mundial segundo a OMS. E para aqueles que perderam alguns episódios como os dedicados à discussão das máscaras, do uso do álcool em gel, das regras de distanciamento e sobre os confinamentos ou até o lockdown, volte e assista novamente, facilidade que as séries gravadas permitem a todos.

Mas o que todos desejam fortemente é que essa série de terror, com algumas pitadas de alívio ou de esperança, termine logo e com um final feliz, como nos velhos filmes de amor de Hollywood. Enquanto isso não vem, proteja-se.


O blog Proteja-se trata de segurança humana de uma forma geral, pois nenhum sistema de proteção civil do mundo consegue garantir a total segurança do indivíduo sem que o mesmo adote procedimentos de autoproteção. O blog quer ajudar a desenvolver no Brasil a cultura da autoproteção. O autor do blog é Airton Bodstein, Doutor em Química Ambiental pela Université de Rennes I, França e Pós-doutorado na Oregon State University, EUA. Fundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Fundador e ex-Presidente da ABRRD – Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastres.
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