Atitudes de precaução em defesa civil

Há quase dois anos, mais precisamente em junho de 2020, escrevi um artigo para o blog cujo título era “A vulnerabilidade brasileira frente a desastres de grandes proporções” e, nesse artigo, analisei o chamado “Princípio da Precaução”, quando abordamos os riscos de desastres de muito baixa probabilidade de ocorrência, mas capazes de causar sérios danos à população, caso venham a ocorrer. Dentre outras ameaças que se enquadram nesse critério, chamei a atenção para os tsunamis que ficaram na memória de todos após o grande evento ocorrido na Indonésia em 2004, causando a morte de mais de duzentas mil pessoas e deixando centenas de milhares desabrigadas. Mais recentemente, em 2011, o fenômeno se repetiu em Fukushima no Japão com efeito devastador semelhante, provocando a morte de 15 mil pessoas e deixando mais de 2.500 desaparecidas. As ondas gigantes atingiram a usina nuclear de Fukushima causando a explosão de três reatores, liberando uma grande nuvem radioativa. Esse  acidente nuclear só foi superado pelo ocorrido em Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Em novembro de 2021 voltei a tratar do tema com o artigo sobre o Vulcão Cumbre Vieja no arquipélago das Canárias, território espanhol na costa africana que, após 50 anos desde o último evento, entrou novamente em erupção em 19 de setembro daquele ano. Como apresentado naquele artigo, esse vulcão representa uma das ameaças – apesar de  muito improvável – de ondas gigantes atingirem o litoral brasileiro. 

Fazendo um retrospecto dos fatos daquele momento, lembro de uma notícia divulgada em 15 de setembro pela Metsul Meteorologia, portanto quatro dias antes da erupção, sob o título “Vulcão capaz de gerar tsunami no Atlântico entra em alerta amarelo”. Nesse mesmo dia troquei mensagens, via WhatsApp, com o meu ex-aluno e orientando, atualmente mestre em Defesa e Segurança Civil, Cel BM Alexandre Silveira de Souza, que já ocupava o cargo de Superintendente Operacional de Defesa Civil (SUOP) do estado do Rio de Janeiro. Para quem não conhece a estrutura da Defesa Civil do estado, a SUOP tem por missão, conforme descrição no site do órgão, “elaborar a estratégia para o desencadeamento de todas as ações e atividades de Defesa Civil, cujo objetivo principal é redução dos riscos de desastres, nas suas mais variadas formas, contemplando desde o planejamento de ações que possam promover a segurança global das populações em conjunto com os Municípios, até o assessoramento técnico ao Chefe do Poder Executivo Estadual, no estabelecimento de critérios técnicos a fim de minimizar possíveis danos e prejuízos resultantes de desastres”. Traduzindo, trata-se do órgão responsável pela proteção de toda a população do estado em caso de desastres de qualquer natureza.

No mesmo dia da nossa troca de mensagens, o Cel Alexandre e sua equipe começaram a levantar o máximo de informações referentes ao vulcão e estabeleceram um contato direto com as autoridades espanholas responsáveis pelo monitoramento do Cumbre Vieja. Através desse canal passaram a obter informações em tempo real de tudo o que estava acontecendo na Ilha de La Palma, antes mesmo do início da erupção, dos seus desdobramentos, bem como dos procedimentos da defesa civil espanhola para o enfrentamento daquela situação crítica para os moradores da região. Várias ações foram desencadeadas pela SUOP como informações aos grupamentos marítimos do CBMERJ, elaboração de nota informativa para divulgação à população pela imprensa através do CEMADEN-RJ, de forma responsável e sem alarmismos, embasada cientificamente e troca de informações com a Defesa Civil nacional e defesas civis dos estados do Amapá e Maranhão a fim de que todos pudessem acompanhar os eventos na ilha espanhola. Toda essa mobilização foi realizada para se prevenir contra uma ameaça que apresentava baixíssimas possibilidades de causar qualquer impacto em território brasileiro, mas caso ocorresse, um plano de resposta já estava preparado;  a isso se dá o nome de PRECAUÇÃO. Esse é o papel de uma Defesa Civil pró-ativa, eficaz e tecnicamente preparada, que se antecipa aos riscos de desastres que possam vir a impactar a população; e como me disse o Alexandre naqueles dias “se há 0,1% de chance de um desastre acontecer, temos que estar 99,9% preparados para enfrentá-lo”. Motivo de orgulho para a população do estado do Rio de Janeiro, a defesa civil trabalha 24 horas por dia para garantir a segurança e tranquilidade para todos. Mas não se esqueça, faça também a sua parte, proteja-se.


O blog Proteja-se trata de segurança humana de uma forma geral, pois nenhum sistema de proteção civil do mundo consegue garantir a total segurança do indivíduo sem que o mesmo adote procedimentos de autoproteção. O blog quer ajudar a desenvolver no Brasil a cultura da autoproteção. O autor do blog é Airton Bodstein, Doutor em Química Ambiental pela Université de Rennes I, França e Pós-doutorado na Oregon State University, EUA. Fundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. Fundador e ex-Presidente da ABRRD – Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastres.
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