Ataques com Armas Químicas – Parte 1

Nessa série de postagem iremos abordar um assunto pouco conhecido e difundido entre os profissionais de segurança e emergência, as chamadas armas químicas ou agentes químicos de guerra, mas que por ser um tema atual e crítico, merece nossa atenção e conhecimento.

Recentemente alguns sites de notícias veicularam que a Ucrânia investiga relatos sobre o uso de armas químicas pela Rússia em Mariupol, só que tanto o Kremlin como as forças separatistas pró-Rússia negaram o uso de tais armas.

Segundo relatos do Batalhão Azov (unidade ucraniana que defende Mariupol) as forças russas lançaram substância venenosa de origem desconhecida contra militares e civis ucranianos na cidade com uso de um VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado). Segundo a vice-ministra da Defesa da Ucrânia, há teoria sobre utilização de munições de fósforo.

A Ucrânia em 2018 foi a nação que mais registrou atentados, totalizando 4.422 ataques com cerca de 92 mortes. Esse cenário a época teria como consequência o aumento das atividades operacionais de grupos militantes separatistas pró-Rússia que atuavam na região de Donbass, no extremo leste do país.

Mas o que são armas químicas?

Num conceito amplo, arma química é um dispositivo que utiliza produtos químicos formulados visando causar a morte ou lesões, permanentes ou não, em seres humanos. Pode também ser classificada como armas de destruição em massa (ADM), fazendo parte deste conceito também as armas biológicas (doenças), armas nucleares e radiológicas (QBRN).

Também podemos definir armas químicas como aquelas que transportam substâncias tóxicas irritantes que atacam a via aérea, pele e tecidos, tanto de animais como de vegetais, já no que tange a aplicabilidade, as armas químicas de guerra são empregadas com a finalidade de matar, ferir ou incapacitar inimigos na guerra ou em operações militares.

Já a definição atual de armas químicas faz alusão a qualquer substância tóxica que possa levar à morte ou causar lesões permanentes, tanto em seres humanos quanto em animais. Por isso as armas químicas são ditas para “fazer uso deliberado das propriedades tóxicas de substâncias químicas para infligir a morte”

Já o bioterrorismo é definido como uso ilegal ou ameaça de uso de microorganismos ou toxinas derivadas de organismos vivos para produzir morte ou doença em seres humanos, animais ou plantas.

Os ataques com agentes bioquímicos (armas de destruição em massa) tem como objetivo criar o medo e intimidar governos ou sociedades perseguindo metas políticas, religiosas ou ideológicas.

Apesar do tema “armas químicas” ter voltado as mídias durante a guerra na Síria e atualmente na invasão da Ucrânia, esse tipo de armamento “não convencional” já é usado há muito tempo.

O primeiro acordo de regulação dos usos desses agentes data de 1675 e foi firmado entre França e Alemanha, proibindo o uso de “balas envenenadas”.

No ano de 1874, a Conferência de Bruxelas proibiu o emprego de armamento envenenado ou de veneno, assim como o uso de projéteis ou materiais que causariam sofrimento excessivo durante os combates, mesmo assim, armas químicas foram amplamente usadas entre 1914 e 1918, na Primeira Guerra Mundial, sendo considerada a primeira guerra química moderna, resultando em mais de 100 mil mortes e milhões de pessoas afetadas.

A Convenção sobre a Proibição do Desenvolvimento, Produção, Armazenamento e Utilização das Armas Químicas e sobre a sua Destruição – CPAQ (Chemical Weapons Convention – CWC) é um Tratado Internacional que proíbe o desenvolvimento, produção, armazenagem e utilização de armas químicas, prevendo ainda a destruição das armas químicas existentes num prazo específico (abril de 2012).

A Convenção entrou em vigor em 1997 e criou a Organização para a Proibição de Armas Químicas – OPAQ (Organization for the Prohibition of Chemical Weapons – OPCW), com sede em Haia.

ARMAS QUÍMICAS NA ATUALIDADE

Um acordo foi alcançado em 14 de setembro de 2013 chamado Framework For Elimination of Syrian Chemical Weapons; levando à eliminação dos estoques de armas químicas da Síria em 2014, mesmo ano em que o grupo Estado Islâmico ofuscou a Al Qaeda como principal grupo militante islâmico.

Já na contramão do movimento do terrorismo em outros países, o Afeganistão foi palco de sangrentos atentados do Talibã e do Estado Islâmico, tornando-se a nação mais mortal em termos de número de fatalidades de civis, conforme dados de 2018.

Podemos dizer que mesmo não sendo comum em nosso pais ataques e atentados envolvendo armas químicas, no cenário mundial é diferente, pois sabemos que o desenvolvimento, a produção e o emprego de armas químicas é uma realidade, e aliado a facilidade de obtenção e/ou produção, simplicidade na forma de emprego bem como a possibilidade de número elevado de vítimas como consequência, chamam a atenção dos grupos terroristas e são preferidas quanto a utilização.

Por isso no arriscamos em afirmar, que a mesma ciência que possibilita o avanço e progresso global, ao mesmo tempo, pode gerar a desgraça dos seres vivos. Com a tecnologia de bombas atômicas, biológicas e químicas, já é possível dizimar populações inteiras, silenciosamente.

CLASSIFICAÇÃO DOS AGENTES QUÍMICOS DE GUERRA

Os agentes químicos de guerra são classificados de acordo com a ação tóxica que provoca nos seres humanos, como agentes neurotóxicos, agentes vesicantes e lewisita, agentes sanguíneos, agentes sufocantes e as toxinas.

Se convencionou que para serem considerados agentes químicos de guerra esses químicos devem apresentar algumas características em especial, dentre elas destacamos:

  • Serem efetivos e eficientes em baixas concentrações;
  • Possuírem relativa volatilidade para permitir sua dispersão no ambiente;
  • Possuírem certa estabilidade à estocagem;
  • Facilidade de penetração no organismo por mais de uma via quer seja respiratória, cutânea, digestória e ocular.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos lista alguns agentes químicos que poderiam ser usados como armas químicas:

Agentes vesicantes/agentes que causam bolhas

  • Lewisitas/agentes de cloroarsina e Lewisita (L, L-1, L-2, L-3)
  • Mostarda/lewisita (HL) e Mostardas
  • Gás Mostarda (H) (mostarda de enxofre), Mostarda de enxofre (H) (gás mostarda), Mostarda destilada (HD), Mostarda/lewisita (HL), Mostarda nitrogenada (HN-1, HN-2, HN-3), Mostarda sesqui e Mostarda/T
  • Oxima de fosgênio (CX)

Agentes sanguíneos

  • Arsina (SA)
  • Cianeto
  • Cloreto de cianogênio (CK)
  • Cianeto de hidrogênio (AC)
  • Cianeto de potássio (KCN)
  • Cianeto de sódio (NaCN)

Agentes asfixiantes ou pulmonares (prejudicam os pulmões, ditos sufocantes)

  • Amoníaco
  • Cloro (CL)
  • Cloreto de hidrogênio
  • Fosfina
  • Fósforo, elementar, branco ou amarelo
  • Fosgênio e Fosgênio (CG)
  • Difosgênio (DP)

Agentes incapacitantes

  • BZ
  • Fentanilos e outros opióides

Agentes nervosos, tipo G

  • Sarin (GB)
  • Soman (GD)
  • Tabun (GA)

Agentes nervosos, tipo V

  • VX e RVX

Segue abaixo um resumo da classificação dos agentes químicos quanto ao emprego tático, ao efeito fisiológico e à persistência.

Fonte: Adaptado pelo autor

Conforme descrito na tabela acima, podemos dizer que os agentes neurotóxicos, vesicantes, hemotóxicos e sufocantes são considerados causadores de baixas, já os vomitivos e lacrimogêneos são considerados inquietantes e os psicoquímicos são considerados incapacitantes.

A persistência de determinado agente depende do seu estado físico (agentes no estado líquido tendem a ser mais persistentes), de suas propriedades físico-químicas e, eventualmente, do uso ou não de espessantes.

Nesse primeiro momento abordaremos um dos mais perigosos e temidos, os chamados agentes neurotóxicos.

AGENTES NEUROTÓXICOS

Os agentes neurotóxicos são compostos organofosforados, compostos orgânicos estes que a princípio foram utilizados como fim bélico principalmente durante a segunda guerra mundial. São amplamente por sua atividade pesticida e são largamente utilizados no mundo inteiro pelo setor agrícola e principalmente no Brasil, já que estamos entre os maiores consumidores de produtos agrotóxicos do mundo. São usados como alternativa para os organoclorados, uma vez que estes possuem maior potencial tóxico quando comparado com as outras classes de agrotóxicos, e também por serem substâncias tóxicas persistentes, ou seja, possuem capacidade de se manter por tempo prolongado no meio ambiente sem degradação. Por isso esses compostos têm sido utilizados no controle de pragas, como retardantes de chamas e agentes plastificantes.

São considerados os agentes mais perigosos dentre as armas químicas de guerra.

INICIO DOS NEUROTÓXICOS COMO ARMAS QUÍMICAS

No ano de 1854, foi sintetizado o primeiro composto organofosforado, conhecido como TEPP (tetratilpirofosfato). Já o primeiro neurotóxico, conhecido como Tabun, foi sintetizado em 1936 pelo químico alemão Gerhard Schrader que pesquisava organofosforados como potenciais pesticidas, 2 anos mais tarde, ele também sintetizou o Sarin e, em no ano de 1944, o Soman foi sintetizado por outro grupo de pesquisadores alemães, e assim estava completa a chamada série G dos agentes neurotóxicos.

Pesquisadores ingleses sintetizaram em 1950 o agente VX, dando início a uma nova séria de neurotóxicos, a série V. Estes compostos são muito mais tóxicos, menos voláteis e mais viscosos que os da série G, por esses fatores, tornam-se ainda mais perigosos que os da série G.

Acredita-se que a Alemanha tenha fabricado mais de 10 mil toneladas destes agentes durante a 2ª Guerra Mundial.

Os principais representantes desta classe são: Tabun (GA); Sarin (GB); Soman (GD) e o agente XV. As propriedades físico-químicas dos agentes neurotóxicos (GA, GB, GD e XV) estão descritos na tabela abaixo.

Fonte: Adaptado pelo autor.

FORMA DE AÇÃO DO NEUROTÓXICO

Os organofosforados são classificados como anticolinesterásicos, pois inibem a degradação do neurotransmissor acetilcolina na fenda sináptica através do bloqueio da enzima acetilcolinesterase (AChE) que é responsável pela degradação da acetilcolina. Uma vez bloqueada a AChE não degrada a acetilcolina das fendas sinápticas, o que provoca acúmulo da mesma nesses locais de sinalização celular, aumentando a excitação neuronal e a transmissão de um impulso nervoso de um neurônio a outro. Os efeitos clínicos relacionados com a inibição desta enzima estão diretamente relacionados com a sinalização promovida pelo sistema nervoso autônomo parassimpático. Uma vez hiperestimulado observamos sintomas como salivação, sudorese, tremores, diarreia, bradicardia, broncoconstrição e consequente dificuldade de respirar, entre outros efeitos tóxicos, sendo todos relacionados a atividade parassimpática tanto muscarínica quanto colinérgica, o que costuma ser denominado de síndrome parassimpaticomimética.

A acetilcolina (ACh) é o mediador químico necessário para a transmissão do impulso nervoso em todas as fibras pré-ganglionares do sistema nervoso autônomo (SNA), em todas as fibras simpáticas pós-ganglionares parassimpáticas e em algumas fibras simpáticas pós-ganglionares, que inervam as glândulas sudoríparas e os vasos sanguíneos musculares. A ACh também é o transmissor neuro-humoral do nervo motor do músculo estriado e de algumas sinapses interneuronais no sistema nervoso central (SNC).

Os agentes neurotóxicos são potentes inibidores da acetilcolinesterase (AChE), que como dissemos é uma enzima muito importante e fundamental para a terminação dos impulsos nervosos nas sinapses colinérgicas dos sistemas nervosos central e periférico, capazes de inibir todas as AChE.

Os compostos organofosforados se ligam de forma bastante estável ao centro esterásico da enzima acetilcolinesterase inibindo sua ação. Desta forma, a acetilcolinesterase não consegue se ligar a acetilcolina, que por sua vez acumula- se nas fendas sinápticas, promovendo a maioria dos sinais clássicos da intoxicação.

Os efeitos anticolinesterásicos dos agentes neurotóxicos podem ser caracterizados como sendo efeitos muscarínicos, nicotínicos. Os efeitos muscarínicos ocorrem no sistema parassimpático (brônquios, coração, pupilas dos olhos, glândulas salivares, lacrimais e sudoríparas) e podem resultar em sinais de edema pulmonar, bradicardia, miose, lacrimejamento e sudorese. Já os efeitos nicotínicos ocorrem no sistema somático (esquelético e motor), e no sistema simpático, resultando em fasciculações musculares, fraqueza muscular, taquicardia e diarréia.

A reação a exposição ocorre de forma rápida, podendo levar a inibição irreversível por um processo chamado de envelhecimento, já que o acúmulo de acetilcolina nas sinapses leva a uma superestimulação das estruturas enervadas pelas fibras colinérgicas (coração, glândulas, músculos lisos) e à chamada síndrome colinérgica que é caracterizada por tonturas, crises convulsivas, micção involuntária, redução do ritmo cardíaco, depressão respiratória, lacrimação e salivação abundante, aumento do ritmo cardíaco, transpiração, ansiedade, fraqueza e cólicas.

Geralmente o óbito ocorre poucos minutos após a exposição por parada cardiorrespiratória de origem central, resultado da depressão do centro respiratório, ou periférica devido à paralisia dos músculos respiratórios.

REFERÊNCIAS

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OPAQ – Organização para a Proibição de Armas Químicas. Disponível em: <http://www.opcw.org/>. Acesso em 15 de abril de 2022.


O blog Emergência em Pauta trata do gerenciamento de emergências e segurança contra Incêndio e Pânico. O autor do blog é Marco Aurélio Nunes da Rocha, técnico em Segurança e em Petróleo e Gás. Graduado em Química e em Segurança, Licenciado em Biologia. Pós-Graduado em Gerenciamento de Crises, Emergências e Desastres, em Segurança e Higiene Ocupacional, em Toxicologia Geral e em Segurança contra Incêndio e Pânico. Especialista em Urgência e Emergência Pré-hospitalar. Professor de cursos de Pós-Graduação de Engenharia de Segurança, Medicina e Enfermagem do Trabalho, Engenharia de Prevenção e Combate a Incêndios, Defesa Civil, Gestão de Crises, Emergências e Desastres e APH Tático Militar e nos MBAs Executivos de Gerenciamento de Crises e de Safety e Security. Diretor do SINDITEST/RS.

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