A explosão no porto de Beirute e o aprendizado deixado

A pedido, farei uma abordagem sobre a explosão ocorrida em Beirute na data de 4 de agosto desse ano, aguardei (literalmente) a poeira baixar para falar sobre esse assunto.

Logo após o evento surgiram muitas teorias para o acontecido, de acidente tecnológico a atentado terrorista. Por isso, sempre digo que falar sem domínio de causa ou conhecimento amplo dos fatos não é informação e sim mera especulação. Desta forma não tratarei dos fatos geradores da ocorrência, mas sobre o evento em si, dentro da ótica da toxicologia e da gestão de riscos.

Esse evento trágico nos faz retornar ao dia 21 de setembro de 1921, data em que ocorreu uma explosão violenta numa das unidades da empresa Basf (Badische Anilin & Soda Fabrik) em Oppau da Alemanha, deixando para trás um rastro de destruição com mais de 561 mortos e quase 2.000 pessoas feridas.

O nitrato de amônio (NH4NO3) sintético que era o carro-chefe da empresa Basf, foi apontado pelo governo libanês como o agente causador da tragédia ocorrida no pais e envolveu cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amônio que estavam armazenadas no porto libanês antes da explosão. De acordo com informações obtidas pela Agência EFE em agosto desse ano, 191 foi o número de mortes causadas por essa explosão, sendo contabilizados ainda mais de 6,5 mil pessoas feridas e cerca de 300 mil imóveis danificados.

Assim como a explosão em Oppau (1921), a de Beirute (2020) também gerou especulações que tivesse ocorrido num depósito de armas e explosivos, mas assim como em Oppau onde especialistas afirmavam ser inconcebível que o desastre pudesse ter sido causado por experimentos secretos, o mesmo parece se repetir em Beirute.

NITRATO DE AMÔNIO, PARTICULARIDADES E RISCOS

O nitrato de amônio é um composto químico de forma molecular NH4NO3, sendo constituído pelos íons NH4+ e NO3. Pode ser produzido a partir da reação da amônia gasosa com uma solução de ácido nítrico ou obtido pela reação entre sulfato de amônio e (NH4)2SO4 e nitrato de cálcio Ca (NO3)2.  

O nitrato de amônio possui em média 34% de nitrogênio, é um produto sólido, perolado ou granulado, muito usado na agricultura, sendo um dos fertilizantes nitrogenado mais utilizado até o fim dos anos 80, quando teve seu consumo reduzido em face ao aumento no controle de sua comercialização, uma vez que é a matéria-prima principal para a fabricação de ANFOs (Ammonium Nitrate / Fuel Oil).

É importante destacar do ponto de vista toxicológico, que o nitrato de amônio pode causar irritação na pele, olhos e mucosas e, se inalado pode gerar problemas respiratórios. 

Porém, o maior risco está associado à sua capacidade oxidante (classe 5.1) e por sua alta reatividade, podendo desta forma interagir com outros produtos, e se contaminado com produtos orgânicos, materiais redutores ou sofrer ação de agentes iniciadores, detonar, além de oferecer risco de ignição ou detonação ao expor-se a alta temperatura (uma vez que desencadeará uma reação de decomposição), tornando-se desta forma imprevisível e perigoso.

Podemos afirmar que o nitrato de amônio por si só não é explosivo. Por isso, desde que sejam observadas as condicionantes de segurança, bem como formas seguras de armazenagem – evitando possíveis incompatibilidades químicas e contato com fontes de calor – o risco de explosão e/ou deflagração é ínfimo. Como já mencionei, assim como outros oxidantes para gerar explosões tem que existir um agente iniciador (gatilho), e por isso existem teorias que falam que nessa ocorrência do Líbano, possa ter ocorrido inicialmente um incêndio primário, fazendo desta forma gerar um aumento de temperatura que foi suficiente para decompor o nitrato de amônio a ponto de gerar a reação explosiva.

Evento similar foi o ocorrido no Texas (USA), em abril de 1947, quando um incêndio em um navio cargueiro oriundo da França transportando mais de 2.000 toneladas de nitrato de amônio causou uma série de explosões que vitimou mais de 500 pessoas, esse evento ficou conhecido como o Desastre de Texas City.

OCORRÊNCIAS ATRIBUÍDAS AO ANFO (Nitrato de Amônio e Óleo Diesel)

O ANFO consiste em 94% de nitrato de amônio granulado (NH4NO3), que atua como agente oxidador e absorvedor para os 6% de combustível (óleo diesel).

Além da Mineração, esse explosivo é muito comum em obras civis, tendo em vista sua estabilidade e segurança no que tange a armazenamento e manuseio, além do que só poderá ser detonado com uma cápsula de azida de chumbo ou fulminato de mercúrio.

Existem relatos de utilização do ANFO em vários atentados terroristas e até uma variante mais sofisticada e poderosa do ANFO o AMONITOL , que consiste na mistura de Nitrato de Amônio com o Nitrometano (CH3NO2) já foi empregada para esse fim quando do atentando de Oklahoma em 1995, atentado esse que foi efetuado contra o Edifício Federal Alfred P. Murrah, sede de várias agências federais norte-americanas entre elas ATF (órgão federal que controla o uso de bebidas alcoólicas, tabaco, armas de fogo e explosivos), o FBI (Federal Bureau of Investigation ) e o DEA (órgão federal que combate o uso de drogas). Esse atentado matou pelo menos 168 pessoas, feriu mais de 680 e destruiu um terço do prédio.

Até os atentados de 11 de setembro de 2001, o atentado de Oklahoma era considerado o mais mortal ato terrorista na história dos EUA.

Para termos noção da magnitude da explosão provocada pelo agente explosivo utilizado, os efeitos da explosão foram equivalentes a mais de 2.000 kg de Trinitrotolueno (TNT), e pode ser ouvido e sentido a mais de 90 km de distância do epicentro.

EFEITOS E LEGADO PÓS DESASTRE

Acredito que temos que aprender com esse evento de forma a atuarmos de forma antecipada reconhecendo as possíveis causas e prevermos medidas preventivas / mitigadoras de forma a evitar que um desastre como esse volte a ocorrer, por isso, essa explosão ocorrida no Porto de Beirute, no Líbano, deixou um alerta sobre o uso e armazenamento do nitrato de amônio em todo o mundo, principalmente em áreas portuárias e em plantas de fertilizantes.

É válido salientar que o desembarque desse produto nos Portos Brasileiros só é realizado após autorização e controle do Exército Brasileiro através da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC), já que ele é considerado uma substância de interesse militar.

Já sabemos que um dos principais riscos associados ao nitrato de amônio está no seu armazenamento inadequado, já que é uma substância muito oxidante e que pode reagir com outros compostos, desencadeando reações com liberação de considerável volume de gás, podendo gerar explosões, desta forma, quando há uma estocagem de quantidade relativamente pequena o risco é mínimo, mas em casos de grandes quantidades, pode haver uma reação em cadeia, que se tornará impossível de ser controlada, já que há um grande volume disponível para a combustão.

Por isso se torna importante que ele seja transportado e manuseado com segurança, da mesma forma que seja armazenado de forma adequada em local seco e arejado, sem interferência de temperatura, nem presença de materiais explosivos ou substâncias que possam gerar reação por incompatibilidade química, tais como matéria orgânica, cloretos, hidrocarbonetos, fluoretos e metais como cobre, bronze, cromo, zinco, etc…

Devemos aprender com eventos dessa natureza para gerar / fortalecer uma cultura de risco operacional mais segura e um melhor emprego da segurança de processo.  Eventos similares podem gerar impactos catastróficos para o sistema, oferecendo riscos à saúde e segurança da coletividade envolvida, impactos ao meio ambiente, além de gerar danos e prejuízos ao patrimônio (público ou privado).


O blog Emergência em Pauta trata do gerenciamento de emergências e segurança contra Incêndio e Pânico. O autor do blog é Marco Aurélio Nunes da Rocha, Técnico em Segurança e em Emergências Médicas. Graduado em Segurança e Pós-Graduado em Gerenciamento de Emergências e Desastres, em Segurança e Higiene Ocupacional, em Toxicologia Geral e em Segurança contra Incêndio e Pânico. Especialista em Urgência e Emergência Pré-hospitalar. Professor de cursos de Pós-Graduação de Engenharia de Segurança do Trabalho, Engenharia de Prevenção e Combate a Incêndios, Defesa Civil, Gestão de Emergências e Desastres e em APH Tático. Membro da International Association of Emergency Managers (AEM/USA). Diretor do SINDITEST/RS.
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